segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Aprovação Automática

Dificilmente o Prefeito eleito no Rio, Eduardo Paes, terá condições de acabar com a aprovação automática, conforme prometeu na campanha. Acontece que boa parte dos educadores, a quem ele delegou poderes para analisar o assunto, é a favor do sistema de ciclos, com aprovação automática, a cada três anos. Estes professores não defendem esta "aprovação automática que está em curso, implantada na administração do Prefeito Cesar Maia", mas sim uma aprovação automática dos alunos com dificuldade no aprendizado ou que sejam mais lentos para aprender, que demonstrem ter conseguido melhorar o desempenho escolar. Para isso, no entanto, é necessário que eles tenham um acompanhamento especial, o que a as escolas não têm condições de oferecer, por absoluta falta de qualificação de seus professores, não por culpa deles, mas devido ao baixíssimo investimento em educação, que só tem prioridade nos discursos de candidatos que depois que se elegem não cumprem suas promessas. O problema começa na falta de pessoal. Para o sistema de ciclos funcionar de forma satisfatória como em países do chamado "primeiro mundo", seria necessário que cada escola tivesse no mínimo o dobro do número de professores que tem. Como quantidade é bem diferente de qualidade, estes mestres teriam antes que se especializar, ou seja: aprender a lidar com alunos com dificuldade para aprender, cujo número é muito maior que as estatísticas indicam, afinal não me lembro de nenhuma pesquisa confiável ter sido feita, por exemplo, para verificar quantos alunos hoje no país sofrem de dislexia, ou síndromes pouco conhecidas até por neurologistas e psicólogos, que muitas vezes são tratadas apenas como hiperatividade, distúrbio emocional ou déficit de atenção. Escrevo a respeito deste assunto com autoridade de pai de um jovem de 16 anos que tem síndrome de x-frágil (que provoca um bloqueio da intelectualidade da pessoa, desde o nascimento, para determinadas tarefas, como o aprendizado escolar, embora não impeça o desenvolvimento em outras, como dança, interatividade com outras pessoas, organização e talvez o principal: o amor demonstrado través do calor humano e a pureza, qualidades cada vez mais escassas nos seres humanos "normais". Há uma década tento encontrar profissionais habilitados para lidar com meu filho e muitas outras crianças e adolescentes que não conseguem aprender na escola. Não tenho dúvida, no entanto, que a aprovação automática, através de ciclos, tem que ser debatida sim, e muito, entre pais e educadores, mas reconheço que não pode continuar sendo praticada da forma atual. O mau do Brasil é querer copiar a Suiça apenas aprovando leis, sem dar condições do país cumprí-las.

2 comentários:

Marcio Racca disse...

encaro a questão da aprovação/reprovação com muita lógica:
aprendeu > comprovou que aprendeu > passou.
se não comprovou que aprendeu > não passou (e tenta outra vez).
deve-se dar uma atenção especial, certamente, aos que possuem dificuldades. infelizmente, como foi afirmado pelo gélcio, não temos corpo docente suficiente para implementar as aulas extras (mais uma das propostas que não devem ser cumpridas pelo nosso futuro prefeito). além disso, quando falamos de problemas reais de aprendizado (excluo aqui a falta de interesse de muitos em aprender), estamos falando de minorias, que são negligenciadas (desde sempre, infelizmente). mas não me parece correto "resolver" (entre aspas mesmo) o problema das minorias com ônus para a maioria. acredito que seja uma tarefa para pedagogos etc estudarem a fundo, sem esquecer a inclusão social. é, não parece fácil... e é por isso que reprovo decisões como a aprovação automática, que parece, num primeiro momento, a única viável.
quando aprovamos alunos que não aprenderam (já que não comprovaram), estamos prejudicando o rendimento de uma turma inteira.
vejo a aprovação automática como uma decisão de demagogos e uma mão na roda para aqueles que querem se livrar da escola a qualquer custo. além, é claro, de um facilitador para os pais, o que rende votos.

Patrícia Goulart disse...

Passar de ano é necessário, mas não é tudo. Pois nem todos os aprovados aprenderam o que lhes ensinaram. Muitos colaram, assinaram trabalhos que não fizeram, foram aprovados pela benevolência dos examinadores; pais e professores particulares é que fizeram de tudo para eles fossem aprovados...
Imagine você já como empresário: você manteria um funcionário que nada produziu, viveu na cola dos trabalhos dos outros e ainda recebe um salário mensal como se tivesse trabalhado? Este custa mais que rende para a empresa. Qualquer empresário cortaria o que não desse lucro.
O salário que você recebe (a nota escolar) deve corresponder ao que você produziu (aprendeu). Mas, como ainda vivemos em contra- mão à verdadeira Educação, a empresa escolar também tem um jeitinho contra-mão para avaliar.Não produz ...Aprova
Quem produz ... acaba desmotivado .
Para tanto, assim como eu, e desde já parabenizando ao Gelcio Cunha, é preciso que divulguemos mais artigos como este e , tenhamos coragem para enfrentar todo um sistema mentiroso. São "vaquinhas de presérpio", adornos uniformes, numa educação sistemática. Me engana que eu gosto"